Resiliência poética

Nossos erros são como avenidas
emburacadas e de duas mãos
E, entre os meus EUS,
um é esse Ser muito mau
Tenho consciência
Mas entre os meus múltiplos eus,
em um deles,
há um vírgula
Uma inflexão
E ali está você
Pois nesse Eu
qual
sou ciente de que
sou um homem infinitamente melhor por você

Anúncios

Resiliência poética Paraíso

Três filas de carros de alguns quilômetros,
um caminhão tanque no posto de gasolina da frente derrubou a bomba
causando um alvoroço.
O pedestre que quase foi atropelado pela moto,
fica ereto e ofegante ao meio fio.
Eis que ela, jovial
com vestido esvoaçado,
surge de bicicleta no meio cafarnaum
e passa pelo canto da pista, de maneira indiferente
e lá de dentro de uma das ilhas de aço
um senhor idoso suspira: o paraíso é algo fugaz!

Tête-à-tête da suficiência

Quero ter um encontro
com você
Desses de uma vida
Um Tête-à-tête
existencial
de
agarrar sua mão em
passeio
e saber do seu melhor
como mulher
e rir com e da sua
melhor risada
como menina
e ter a necessária
acuidade
de ouvir sua voz
em canto
Com todo seu
gosto e encanto
Quero e desejo
seu corpo
se esgueirando
suado
ao meu,
em arrepio
sob o estalo
do nosso beijo
no nosso
Tête-à-tête
Sexual
Quero
existir e te provar
Faminto
Pois sem você,
essa luz, esse dia, esse ar
é insuficiente

 

por Carlos Biasoli

Uma Ribeirão de demagogos

001A prefeita Dárcy Vera errou e continua errando em várias frentes do seu governo, politicamente a ocupante do Palácio do Rio Branco deu poder a pessoas avessas ao bom diálogo (forças políticas) e uma porta se fechou na sua interlocução com os veículos de comunicação e com a sociedade civil.
Dárcy também não soube se reinventar após uma reeleição apertada, onde o sinal da sociedade era cristalino. Era preciso assumir erros, mudar e consertar vários vícios políticos.
Com a falta de entendimento com a sociedade, erros crassos administrativos ficam sempre ainda mais evidentes, é o caso da falta de asseio nas ruas e praças da cidade, o que dizer em áreas mais agudas?
Um político experiente uma vez verberou que o político pode até fazer metrôs, viadutos e obras de grande vulto, mas se aos olhos do cidadão o poder público demonstra qualquer tipo de negligência, este é duramente punido pela opinião pública.
O vácuo institucional gera no indivíduo o desprendimento coletivo, e Ribeirão Preto, vai mal, convenhamos.
Todavia, o ex-presidente americano Abraham Lincoln em uma frase resumiu muito bem o pior dos vícios da política, a demagogia. “A demagogia é a capacidade de vestir as ideias menores com palavras maiores”.
Escrevo isto leitor, porque os findos meses da administração Dárcy Vera me causam menos medo, por desolador que seja, do que o que pode vir numa cidade sem diálogo político e envolta do rancor coletivo.
Governos fracos são campos férteis de demagogos, eles nascem aos cântaros, e quantos são os que vestem suas ideias menores com palavras maiores em Ribeirão?
O processo democrático brasileiro sofre um revés em todo o país, por decepção do povo com seus líderes, é certo; e em Ribeirão, isso é ainda mais latente, e os demagogos estão aí ocupando microfones e as ideias de uma população ignara e com sangue no olho. Desolador.

Redução da Maioridade e a psicopatia coletiva do ódio nacional

3Eu não sou radicalmente contra a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, eu entendo os argumentos de quem a defende, embora eu tenha certeza de que ela não é começo da solução de um problema, mas o início de um enorme.
Todavia, debater da maneira que debatemos e lançar isso como o Santo Graal da segurança pública é um equívoco.
O importante, a saber, é que o sistema prisional brasileiro é viciado, até mesmo em estados ricos como São Paulo, o sistema é falido. Hoje o PCC (Primeiro Comando da Capital) comanda a maioria dos presídios do estado. E a mistura de delinquentes de infrações menores com grandes figuras do crime é o modus operandis da estupidez, é como se a sociedade entrasse com a oferta e os bandidos que aliciam um menor e sua família garantissem um soldado por toda a vida, com a procura.
Só 1% dos homicídios é praticado por menores e segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, de todos os atos praticados por menores, somente 4% são homicídios, 60% são crimes contra o patrimônio. Nada mais perigoso do que ser jovem, homem e negro, mais de 50% das pessoas assassinadas são jovens, destes, 70% são negros, 93% homens.
Na verdade, mais uma vez, debater temas polêmicos como esse em meio a crises institucionais ou sob a verve “vingativa” de uma sociedade rachada em classes é um desmando. É a falência da política.
Eu acredito que um adolescente com 16 anos pode ser punido por crimes hediondos, acredito também que eu, como cidadão ao me sentir ameaçado ou minha família, penso em reagir e até me vingar, mas o Estado não, este deve ser soberano e pensar na sociedade como um todo. O sistema prisional baseado somente na punição é uma ideia arcaica e hoje ele é uma faculdade do crime.
E pior, o ocaso do acaso é perturbador, justamente quando vemos um menino de 10 anos assassinado por um tiro de fuzil numa favela pacificada (favela do Alemão), que cena, meu Deus!
E o que é pior pode piorar, no dia seguinte nas redes sociais sádicos colocavam foto de uma criança parecida ao menino violentamente assassinado segurando um fuzil. E lia-se: “Leva pra casa! Um bandido a menos!”
Todavia, o Brasil está se tornando um país rompido com seus laços de solidariedade, o nosso país, que nunca foi um lugar justo, mas que ao menos convivia com suas diferenças, hoje, com o choque de classes, destampou o bueiro e dele surgiram os tétricos sequiosos de sangue. Jovens negros que se cuidem, o Estado vem aí!
Por fim, mais uma vez, não, não era o mesmo menino, o morto não era o que segurava o fuzil e mesmo que fosse, quem estaria errado, a criança que tem a idade do meu filho, ou uma sociedade que produz em sua indiferença crianças nesse estado de violência?
Coloco-me no lugar destes pais, e pergunto ao leitor, nós temos a noção de o quanto a sociedade brasileira caiu numa psicopatia desenfreada? O quanto estamos doentes e insanamente cheios de ódio?

O jornalismo vagabundo e o “Podemos tirar, se achar melhor”.

7

Entender o papel da imprensa na democracia vai além do de repetir o chavão de “quarto poder”, a imprensa é por si só, por função e responsabilidade, um dos bastiões da liberdade de expressão, pois bem, um dos pilares democráticos.
Já escrevi que a imprensa não deve viver de interesses mas não é desinteressada, o problema é quando parte da imprensa deixa de trabalhar com a crítica no bolso e passa a trabalhar por adesão a patrões e patrocinadores. Um exemplo claro disso, são as revistas semanais no Brasil que se resumem as que estão do lado do governo e as que estão do lado da oposição, todos cheios de interesses, cada vez mais “interessados”, com menos escrúpulos e crítica.
O diabo que essa generalização é gestação de uma sociedade desinformada e/ou uma sociedade de idiotas “esclarecidos” ou mesmo, o parto da a era da ”indignação seletiva”
Um erro crasso recente chamarou a atenção de como demonstram que o pior do mundo político adentrou nas redações enquanto a crítica saia pela janela.
A agência de notícias britânica Reuters publicou uma entrevista e o jornal O Globo republicou, com o ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso sobre a atual conjuntura política no País. No sexto parágrafo da entrevista tucano-chapa-branca, o texto lembra que um dos delatores do esquema da Petrobrás, o ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco, disse ter começado a receber propinas em 1997, ainda sob o governo FHC.
Entre este parágrafo e o próximo, logo após a citação, aparecia entre parênteses e em vermelho uma observação em off: “Podemos tirar, se achar melhor”. Ficando então explícito a blindagem entre entrevistado e entrevistador (a crítica pulava a janela neste momento) dando assim a possibilidade de suprimir o trecho. Um anátema jornalístico qual o jornal O Globo em Ctrl C e V vagabundo ajudou a piorar.
Para ajudar esse jornalismo preguiçoso, como a Ana Maria Braga, “cansei” e resolvi aderir:
O mesmo doleiro que em delação premiada descreveu os crimes de corrupção na Petrobrás, depôs que Aécio Neves presidente do PSDB recebia propina através de uma diretoria de Furnas. “Podemos tirar, se achar melhor”.
O mensalão começou com o PSDB de MG e nenhum dos seus envolvidos foi até hoje, julgado. “Podemos tirar, se achar melhor”.
Os professores de SP estão em greve, 40mil foram às ruas. “Podemos tirar, se achar melhor”.
Um procurador indicado pelo governador de SP engavetou oito ofícios do Ministério da Justiça que pediam apuração do escândalo do Metrô de São Paulo. “Podemos tirar, se achar melhor”.
46% dos alunos de SP dizem que já passaram de ano sem aprender. “Podemos tirar, se achar melhor”.
Em SP a PM é mal paga, faz rodízio até de colete e seu efetivo é reduzido a 30% do necessário. “Podemos tirar, se achar melhor”.
A crise hídrica foi agravada pela inércia do governo estadual que foi avisado anos atrás que ela aconteceria. “Podemos tirar, se achar melhor”.
Etc etc etc “Podemos tirar, se achar melhor”.
Isso tudo não exime que corruptos e corruptores, expostos pela imprensa, paguem pelo chorume exalado da corrupção. Mas não deveriam ser todos a pagar?
Pois, pior do que um uma justiça falha, é uma justiça dúbia, pior que uma imprensa acrítica é uma imprensa “interessada”.
Mas, “podemos tirar, se achar melhor”.

Literatura, lutas, música, poesia, política

%d blogueiros gostam disto: